Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Jorge de Capadócia
(Jorge Ben)
Jorge sentou praça na cavalaria. E eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia. Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge. Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem. Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem. Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam. E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal. Armas de fogo, meu corpo não alcançaráFacas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar. Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar. Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge. Jorge é de Capadócia, viva Jorge!Jorge é de Capadócia, salve Jorge!Perseverança, ganhou do sórdido fingimento. E disso tudo nasceu o . Ogam toca pra Ogum. Jorge é da Capadócia
Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Arthur Moreira Lima e um piano pela estrada
Ontem, a avenida da orla fluvial de Petrolina assistiu Arthur Moreira Lima estacionar, trancando a rua, seu caminhão teatro. A Scania transforma-se em palco em menos de uma hora. Já havia lido sobre o projeto Um piano pela estrada, mas não entendia como a coisa funcionava. A caravana conta com dois caminhões, uma vã e um carro de passeio que levam a equipe a cidades do interior do Brasil. Aqui em Petrolina, a avenida lotou pra desdizer a falsa de que o povo só escuta porcaria; e fez-se o silêncio para ouvir o repertório que foi de Chopin e Beethoven a Piazzolla passando com desenvoltura por Pixinguinha e Villa-lobos: um gozo! Duas horas de um concerto vigoroso com excelente aparato de som e um telão que mostrava em tempo real as mãos do cara a deslizar pelas teclas. De quebra, a caravana ainda leva a mulher e a filha de Moreira Lima, cirurgiãs-dentistas, que em paralelo desenvolvem o projeto Um sorriso pela estrada , levando educação em saúde bucal às entranhas do país. Aqui, elas visitaram uma escola pública para realizar palestr
as, distribuição de escovas, aplicação de flúor, enfim. Arthur Moreira Lima apresentou-se sem mais caretas ou sem o cabelo arrepiar como na juventude: o arrepio ficou para a platéia que o aplaudiu de pé por minutos quando o concerto teve fim com seus floreios loucos sob o hino nacional. Incrível!!! Se forem na sua cidade, não perca!
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Natanael Mahon
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
Stop Motion FORD 29
Nildo, artesão aqui de Petrolina, fez a escultura, meu amigo Dário fotografou e eu montei o filminho...
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Natanael Mahon
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Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008
Mãe distante e dor de dente
Uma das piores dores, acreditem leitores, é ter a mãe com dor de dente. Agrava, e muito, o fato de ter por ofício a odontologia e morar a cerca de mil quilômetros da minha. Uma definição de dor que muito me agrada é a que diz que dor é “uma sensação pessoal íntima do mal”, embora a mais aceita cientificamente seja a clássica “experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão tecidual real ou virtual, ou descrita em termos duma tal lesão.” . Sofrimento é algo que não pode ficar de fora quando se tenta definir dor, daí a importância da palavra “emocional” no conceito acima e , ainda, como elo que liga a dor da mãe à do filho que a assiste, somando-se frustação à dor do filho que não pode assisti-la. Na Grécia Antiga a dor era entendida como um ser que se alimentava de uma vítima. Oswaldo Giacoia escreveu que "O insuportável não é a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido." A dor de dente tem o sentido de alerta, nem por isso é menos insuportável. A dor que senti tem o sentido da impotência de, dominando a ciência, não amainar o sofrimento da mãe... Dane-se Giacoia! Os assírios tinham a crença de que a dor era uma intoxicaçáo pelos espíritos malignos, ou um castigo divino resultado de pecados cometidos. Que pecado minha mãe, que pecado!
A figura é de tela de Frida Khalo
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Natanael Mahon
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
Gilda, Monet e as cores
Juan havia morrido a cerca de um mês quando Gilda recebeu seu convite para acompanha-lo em uma viagem. Tudo ficou combinado, mas ela sentia que suas coisas careciam de certa ordem. Não sabia bem o quê, sabia bem que esqueceria alguma providência. Era sempre assim...Revirou sua gaveta de problemas, segredos, documentos em uma busca angustiada permeada de uma náusea fria, plástica, sonolenta de ansiolíticos. Divagou por alguns minutos quando achou uma foto antiga, sépia, daquelas com picotes nas margens...Lembrava do dia, do flash, do riso forçado...
Procurou a irmã, passou umas instruções sobre os filhos entre os goles de café forte coado num pano roto, cujo aroma quase se via a penetrar as narinas, prenunciando uma felicidade fugaz, de cafeína, que a irmã completava ,se afastando, com um cigarro fumado a longos tragos interrompidos por uma tosse gorda
Na hora marcada o ônibus encostou, pairando a um palmo do chão. Juan na primeira janela, braços estendidos, um semblante de harmonia. Ela deu-lhe as mãos e embarcou. Foi saudada por crianças, pareciam felizes por vê-la. Juan disse-lhe que fizeram festa para vir busca-la, e enquanto lhe falava, sua voz tornava-se distante, Gilda a olhar pela janela...Não conhecia as cores. Tentava identifica-las. Sabia que as via pela primeira vez. Não estavam no arco-íris, nas misturas das paletas mais completas, nos Monets que tanto admirava. Não estavam...
- Gilda! Gilda! Gilda! Aqui estamos, chegamos – o ônibus a afastar-se -.
- Que cores são estas?
- Só existem aqui.
- É maravilhoso, mas e este fosso? Como se sai daqui?
- Sair? Como assim? Não tá feliz?
- Sim, mas se eu quiser...
- ...Mas ninguém nunca quis ir antes
Juan fechou a janela pela primeira vez, certo que ela entenderia, talvez com o tempo, com a eternidade, talvez.
Procurou a irmã, passou umas instruções sobre os filhos entre os goles de café forte coado num pano roto, cujo aroma quase se via a penetrar as narinas, prenunciando uma felicidade fugaz, de cafeína, que a irmã completava ,se afastando, com um cigarro fumado a longos tragos interrompidos por uma tosse gorda
Na hora marcada o ônibus encostou, pairando a um palmo do chão. Juan na primeira janela, braços estendidos, um semblante de harmonia. Ela deu-lhe as mãos e embarcou. Foi saudada por crianças, pareciam felizes por vê-la. Juan disse-lhe que fizeram festa para vir busca-la, e enquanto lhe falava, sua voz tornava-se distante, Gilda a olhar pela janela...Não conhecia as cores. Tentava identifica-las. Sabia que as via pela primeira vez. Não estavam no arco-íris, nas misturas das paletas mais completas, nos Monets que tanto admirava. Não estavam...
- Gilda! Gilda! Gilda! Aqui estamos, chegamos – o ônibus a afastar-se -.
- Que cores são estas?
- Só existem aqui.
- É maravilhoso, mas e este fosso? Como se sai daqui?
- Sair? Como assim? Não tá feliz?
- Sim, mas se eu quiser...
- ...Mas ninguém nunca quis ir antes
Juan fechou a janela pela primeira vez, certo que ela entenderia, talvez com o tempo, com a eternidade, talvez.
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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Compilação 2: Os dez livros que marcaram minha vida
A seleção dos dez discos que marcaram minha vida foi um exercício bem interessante, até polêmico. Resolvi ir bem além e fazer a lista dos dez livros que marcaram minha vida. Bem mais difícil, dolorosa e talvez injusta tarefa. Diferente dos discos, essa relação está bem mais ligada aos melhores livros que li, foram eles que marcaram. Repetirei autores, foram eles que marcaram. Não colocarei, como na lista anterior, em ordem cronológica e sim em ordem passional. Dito isso, mãos a obra.
1 – O Falador – Mario Vargas Llosa
Foi a coisa mais sensível e apaixonante que já li. É daqueles livros que você não quer terminar, que economiza as últimas páginas, e que volta e lê novamente alguns trechos. Fala da tradição entre os machinguengas amazônicos de ouvir histórias trazidas por um falador misterioso que anda pela floresta e transmite o que seria para eles seus filmes, livros, entretenimento...
“O sol, tão forte, não fazia chorar aqueles que se atreviam a olha-lo fixamente, sem piscar? Que ajuda ia necessitar, então? Isso de que caía e levantava era manha. Kashiri, em compensação, com sua luz tênue, bondosa, estava sempre lutando contra as trevas, em condições difíceis. Se a lua não estivesse ali, nas noites, espiando no céu, a escuridão seria completa, uma trava espessa: o homem cairia no precipício, pisaria na víbora e não poderia encontrar sua canoa nem sair para cultivar a mandioca ou caçar.”
2 – Dentes ao sol – Ignácio de Loyola Brandão
O primeiro de pouquíssimos romances que li mais de uma vez. Desconcertante e denso, muito denso.
“Ele mesmo contemplava seus olhos nos cartazes e as lágrimas corriam. Olhava no espelho e chorava, de alegria. Era um azul-céu, azul-mar, azul-azul. Então, enfiou o canivete no olho, tirou o globo esquerdo. Depois, o direito.”
3 – O outono do patriarca – Gabriel García Márquez
O poder é o centro de tudo aqui. O poder pelo poder, e a crise de um homenm que não sabia o que fazer com ele. Eu estava acometido por uma febre depois de ler “Cem anos de solidão” e achava que não encontraria nada mais além de García Márquez. Li todos os romances, os contos, biografias. “O outono...” foi só o segundo, mas o que mais me cativou
“...encontramos no santuário deserto os escombros da grandeza, o corpo picado, as mãos lisas de donzela com o anel do poder no osso anular, e tinha o corpo todo porejado de minúsculos liquens e animais parasitários do fundo do mar, sobretudo nas axilas e nas virilhas, e tinha a funda de lona no testículo herniado que era o único que os urubus haviam evitado apesar de ser tão grande quanto um rim de boi...”
4 – Toda poesia – Ferreira Gullar
É dos meus livros, o que não tem lugar na estante, o que vive perambulando pela casa, um dos poucos que comprei eu mesmo. Dentro dele há tudo que Gullar escreveu em versos e, amo tudo! Tenho especial apreço por “Dentro da noite veloz”(1962-1975) e Gullar é pra mim o poeta maior.
“ A claridade destruiu os cavalos neste chão de evidências; as velhas caem das folhas, com os seus dentes, numa vacilação de ar; duas formas, sentadas, falam do tempo do corpo: “os que cavam ferem a terra e a luz”; mas anda o espaço, o campo de pura mecânica;”esta brisa que, amanhã, derrubou as janelas, ontem voltará, sem que te vejas”; colhe-se a futura cor, com mão de agora.”
5 – O estrangeiro – Albert Camus
Acho que todos temos um pouco (ou muito) de Meursault, e por ele ser tão indiferente, o romance é incrível.
“Expliquei que isso não tinha importância alguma e que, se ela o desejava, poderíamos nos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu me contentava em dizer que sim. Observou, então, que o casamento era uma coisa séria. – não – respondi. Ela se calou durante alguns instantes, olhando-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, partindo de outra mulher, com a qual tivesse o mesmo relacionamento, eu teria aceitado a mesma proposta. – Naturalmente – respondi.”
6 – Zen e a arte da manutenção de motocicletas – uma investigação sobre valores – Robert M. Pirsig
A paixão que tenho pelas motocicletas foi a coisa menos importante para que me apaixonasse pela viagem de Pirsig e suas inquietações com o mundo contemporâneo, as relações entre homem e máquina, a vida em meio à tecnologia e sua teoria (verdadeira e publicada) sobre a qualidade.
“ As primeiras vítimas dessa subtração, segundo Fedro, seriam as belas-artes. Se não se pode distinguir o bom do mau nas artes, elas automaticamente desaparecem. Não há motivo para colocar um quadro na parede quando a parede nua parece tão boa quanto ele. Não há motivo para ouvir uma sinfonia se os ruídos dos arranhões do disco ou a vibração da vitrola já nos satisfazem.
Depois, desapareceria a poesia, porque raramente faz sentido, e não tem nenhum valor prático. E, estranhamente, desapareceria também a comédia. Ninguém mais entenderia as piadas, porque a diferença entre o humor e o não-humor é pura qualidade.”
7 – Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez
Não vou comentar nem preciso citar um trecho. O livro me pôs em delírio, pesquisei minha árvore genealógica a procura de uma descendência com os Buendía, sentia no calor do Recife, uma semelhança com os ares de Macondo, queria dormir a sesta em redes, suando, conhecia a casa de dona Úrsula com a palma das mãos e me sentia, mesmo, como um primo, sei lá, daqueles Aurelianos...
8 – Eu e outras poesias – Augusto dos Anjos
Sabe aquelas edições de bolso, baratinhas? A minha deve ter uns 10 anos e está intacta. Confesso que não sinto lá mais o enorme fascínio que havia naquelas páginas quando as devorei pela primeira vez. Foi uma loucura coletiva; em meu ciclo de amizades, todos decoravam aqueles versos que nos pareciam então, a coisa mais original que alguém já havia escrito. Obviamente ainda acho incrível.
“...E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do futuro
Livres de microscópios e escalpelos,
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Bilhões de centrossomas apolínicos
Na câmara promíscua do vitellus
Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares
...”
9 – Meditação a primeira e última liberdade – Osho
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do futuro
Livres de microscópios e escalpelos,
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Bilhões de centrossomas apolínicos
Na câmara promíscua do vitellus
Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares
...”
9 – Meditação a primeira e última liberdade – Osho
Pode parecer muito estranho esse livro em meio aos outros da lista, mas o fato é que mudou muita coisa em mim. Minha mãe esteve à beira de um ataque de nervos quando instaurei um jejum verbal durante a lua nova, não falava e não comia, ia para o meio do mato e meditava. Emagreci 35 quilos rapidamente, tornei-me vegetariano definitivamente (13 anos atrás), pratiquei yoga, li os vedas, ouvia ragas, me conheci um bocado. Passou a turbulência e muito de bom ficou.
“ Pessoas integradas tornam-se indivíduos e a sociedade não quer que vocês sejam indivíduos. Em vez de individualidade, a sociedade ensina-lhe a ser uma personalidade. A palavra “personalidade” tem que ser entendida. Vem da raiz persona – persona significa “máscara”. A sociedade lhe dá uma idéia falsa de quem você é; da-lhe apenas um brinquedo, e você permanece agarrado ao brinquedo toda a sua vida.”
10 – Manuelzão e Miguilim – Guimarães Rosa
O menino queria acreditar que o Mutum, onde vivia, “É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre” . O que fascina na obra é o que fascina em Guimarães Rosa: o regionalismo e a linguagem, além do imaginário infantil de Miguilim. Lindo!
“De já, tinha um boi vermelho, boi laranjo, esbarrado debaixo do alto tamboril. Tantas cores! Atroado, grosso, o môo de algum outro boi. O Dito então aboiava.”, “...bicho macaco se escapuliam de pra toda banda, só guinchos e discussão de assovio, cererê de mão em mão, assunga rabo”, “...Ali no oratório, embrulhados e recosidos num saquinho de pano, eles guardavam os umbiguinhos secos de todas os meninos, os dos irmãozinhos, das irmãs, e o de Miguilim também rato neném não pudesse roer, caso roendo o menino então crescia para ser só ladrão! ”
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Natanael Mahon
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